quinta-feira, janeiro 27, 2022
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Após temporal no Sul do Estado, famílias reviram lama e temem por futuro

As águas do rio Jucuruçu, que corta a zona urbana de Itamaraju (661 km de Salvador), começaram a ceder e nesta segunda-feira (13) centenas de famílias passaram a voltar para suas casas após dias de angústia com a pior tempestade dos últimos 35 anos no extremo sul da Bahia.

No bairro Várzea Alegre, que fica em uma parte baixa da cidade, um grupo de mulheres voltou a sentar nas margens das águas escuras do rio para lavar, peça a peça, tudo que conseguiram resgatar de suas casas. No horizonte, a ponte que cruzava o rio estava parcialmente desmoronada.

Nas casas, quase não restaram móveis. Nas ruas alagadas do bairro, geladeiras, armários e dezenas de colchões aguardavam para serem recolhidos e descartados nas portas das casas. Do lado de dentro, o cheiro forte de lama persistia não importa o quanto o chão tenha sido lavado.

O dia em Itamaraju foi para recolher escombros, contabilizar prejuízos e dividir com os antigos vizinhos as angústias sobre o futuro.

A tempestade, que começou no extremo sul e se espalhou por outras regiões do interior da Bahia, já deixa um saldo de dez mortos, 51 cidades em situação de emergência, 6.371 pessoas desabrigadas e 15.199 desalojados.

De acordo com dados Defesa Civil do Estado da Bahia divulgados nesta segunda-feira (13), mais de 200 mil pessoas foram atingidas de alguma forma pelos temporais no estado.

Uma delas é Luciano de Jesus Silva, que deixou a casa às pressas quando a água do rio começou a subir na última quarta-feira (8).

“A gente nunca esperava uma enchente dessa. Aqui sempre teve enchente, mas o normal era a água vir, dar aquela lavada no calçamento e ir embora. Dessa vez não. Foi uma coisa de meter medo”, disse Luciano, enquanto tentava resgatar um armário cuja madeira já estava inchada e amolecida pala água.

Com exceção de um fogão, os demais móveis da casa foram todos perdidos. Parte deles, comprados em prestações, não haviam sido sequer quitados pela família e se transformaram em escombros que se amontoavam em frente à casa.

Na residência ao lado, sua vizinha Maria Célia Lage, 50, lavava as roupas, utensílios domésticos e tentava recuperar miudezas que ficaram pela casa.

Volta e meia, vinha para a entrada e puxava conversa com os vizinhos em tom de lamentação. Desempregada há mais de um ano, dizia não ter ideia de como vai se recuperar dos prejuízos.

Luciano assentia, lembrando que a maioria das famílias do bairro devastado pelo temporal não tem emprego formal e vive da informalidade.

“A gente vive aqui ao Deus dará, né? A gente só tem o dia passar fome e a noite sonhar que está comendo. E aí, a natureza vem lá e cobra também. Mas na hora que a natureza vem só quebra do lado mais fraco”, desabafou.

Com um cigarro de palhas nas mãos, Evandro de Jesus Oliveira, 40, que também vive de trabalhos informais, lamentava: “Dói. A gente sabe o quanto suou para conseguir cada coisinha de nossa casa. O negócio agora é correr atrás para conquistar tudo de novo.”

Dois quarteirões adiante, um caminhão encostava para recolher escombros de sofás e colchões. Em uma das casas, restou o gorro de Papai Noel pendurado na porta, anunciando um Natal que se avizinha. Do lado de dentro, contudo, só restou lama depois que os móveis foram retirados.

Com um galho nas mãos, uma senhora recolhia toalhas enlameadas na esperança de fazer delas panos de chão. Embaixo de uma banheira de bebê já quebrada, achou um dos pares de uma bota intacto, mas ainda persistia concentrada para encontrar o outro par.

Sentado em um batente, Claudionor Ferreira da Silva, 73, permanecia incrédulo: mora há 60 anos na mesma casa na beira do rio, mas foi a primeira vez que teve que deixá-la para trás em meio a uma tempestade.

Só saiu depois de ser convencido pelos filhos, que ameaçaram chamar a polícia para retirá-lo da zona de risco.

A tempestade foi causada pela formação de uma área de baixa pressão no oceano Atlântico, próximo à costa do Brasil. De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), a expectativa é de arrefecimento das chuvas no extremo sul da Bahia a partir desta semana.

A prefeitura de Itamaraju estima que precisará de cerca de R$ 50 milhões para a reconstrução das regiões atingidas pelas chuvas e apoio às famílias.

O governo federal liberou R$ 5,8 milhões a seis cidades atingidas e aguarda o plano de trabalho de outras 24 para repassar o recurso emergencial. Neste domingo (12), o presidente Jair Bolsonaro (PL) fez um sobrevoo sobre as áreas atingidas.

As chuvas também causaram estragos em outros pontos do estado. Na cidade de Apuarema, sudoeste da Bahia, duas barragens se romperam, inundando casas e estabelecimentos comerciais. Tempestades também castigaram Lençóis, na Chapada Diamantina, e Amargosa, no Recôncavo.

Na região central de Itamaraju, operários reconstruíam a balaustrada de uma das pontes que acabou arrastada pela força da água e o calçamento em paralelepípedo das ruas principais da cidade.

Famílias inteiras ainda dividiam espaços em nove abrigos temporários que foram improvisados em escolas e prédios públicos.

No bairro de Jucuruçu, que também foi um dos mais atingidos pela cheia do rio, líderes religiosos de igrejas evangélicas e militantes do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) trabalhavam lado a lado na distribuição de roupas, alimentos, água e material de limpeza para as famílias atingidas.

O vendedor Luciano Souza de Nascimento, 24, foi um dos que liderou a rede de solidariedade nos bairros mais atingidos, ajudando inclusive no resgate de algumas famílias no período crítico da chuva.

Chegou ao bairro em meio à tempestade por volta da 9h da última quarta (8), com a água batendo nos seus joelhos. Deixou o local às 3h de quinta, com a água na cintura.

Machucou a perna ao pisar em falso no buraco de um bueiro coberto pela água, mas permaneceu ativo. Nesta segunda, ajudou a distribuir marmitas para comunidades vizinhas.

Durante o pico das chuvas, a maioria das famílias correu para a parte alta da cidade, considerada mais segura. Mas foi justamente em uma dessas áreas onde aconteceu um dos capítulos mais trágicos das enchentes.

Chovia forte, mas Driele Alves dos Santos, 29, se sentia segura na casa que dividia com o marido e três filhos em um terreno contíguo ao da residência da sua mãe. Mas a terra deslizou e uma árvore que ficava logo acima da casa tombou, fazendo desabar o muro do quarto onde estavam seus dois filhos caçulas Cícero, 9, e Ana Cecília, 4. Ambos morreram no desabamento, que também atingiu parte da casa de sua mãe, matando seu irmão Ediel Alves dos Santos, 26.

Driele, seu marido, seu filho mais velho e sua mãe estão abrigados em uma casa na mesma rua que pertence à igreja evangélica que a família frequenta. Ainda estão em choque com as perdas.

Na véspera, a filha mais nova Ana Cecília havia ajudado Driele a cozinhar um bolo para dar de presente para o pai. À noite, com a família reunida, Cícero faz uma espécie de pregação e falou de Jesus Cristo. Para a mãe, os dois gestos hoje soam como uma despedida.

Com as feridas das perdas ainda abertas, ela diz que a ajuda material é bem-vinda, mas que o mais importante são as ajudas que veem em forma de oração: “Dá algum conforto”, diz Driele, que ainda não teve coragem de voltar da casa que desmoronou e diz não ter ideia do que será de seu futuro.

Folhapress

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